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20 de Outubro de 2021

Inteligência emocional: 6 dicas práticas para advogados

Dicas básicas de inteligência emocional, compreensão do conceito e discussão sobre os elevados níveis de estresse entre advogados.

Blog do Jusbrasil
Publicado por Blog do Jusbrasil
há 8 meses

O dicionário Oxford define inteligência emocional da seguinte forma:

"A capacidade de compreender as suas emoções e as de outras pessoas e de se comportar de forma adequada em diferentes situações"

Inteligência emocional é um tema complexo, cuja própria definição é marcada por critérios subjetivos. Como definir um comportamento "adequado" para uma situação particular? Como ganhar capacidade de compreensão das próprias emoções em diferentes situações nas quais vivemos?

E, especificamente para este texto: por que devemos refletir sobre inteligência emocional dentro da perspectiva da advocacia?

Por que as práticas de inteligência emocional são importantes na advocacia?

Advocacia é uma profissão estressante. Mais e mais, ouvimos palavras como "burnout" tornando-se famosas entre nossos ciclos de convivência. Os motivos são diversos. Se você é um advogado autônomo, provavelmente tem diversas preocupações:

Trata-se de uma administração da vida profissional capaz de tomar muito tempo do seu dia. Às vezes, mesmo quando não estamos trabalhando, estamos pensando em trabalho.

Além disso, importa ressaltar que o Direito muitas vezes é uma profissão que lida diretamente com o conflito.

As pessoas buscam um profissional da área jurídica para compreender a melhor forma de lidar com um conflito e, assim, esperam soluções. Muitas vezes as soluções não serão aquelas que os clientes querem ouvir.

Praticar advocacia, em suma, é administrar expectativas o tempo inteiro. A justiça pode ser morosa, o cliente pode ser incompreensivo, o juiz pode desviar do entendimento que você desejava e a remuneração do mercado pode se encontrar em um patamar mais baixo do que o desejado.

Fátima Antunes, em seu livro "Estresse em Advogados", realizou pesquisa com 702 advogados associados à OAB-RJ. A percepção da autora é que embora tenha encontrado altos níveis de estresse e de saúde mental prejudicada dentro da advocacia, normalmente os profissionais se recusam a lidar com o problema até que ele se torne incapacitante para sua prática profissional.

Aspectos da inteligência emocional

Podemos classificar alguns aspectos da inteligência emocional para nos auxiliar na compreensão do conceito:

  1. Entender como nossas emoções funcionam;
  2. Entender o que devemos fazer para compreender o outro melhor;
  3. Entender as melhores formas de reagir a partir dessa compreensão.

O conceito amplo engloba temas como empatia, gerenciamento de emoções e gerenciamento de expectativas. Conhecer seu perfil emocional, por sua vez, diz respeito a compreender aquilo que te afeta e a forma como isso se manifesta em suas ações.

Vivemos, portanto, o tempo todo em contextos nos quais devemos conhecer melhor a nós mesmos e aos outros - somos seres relacionais, principalmente na prática da advocacia, onde lidamos fundamentalmente com expectativas e relações de confiança.

Atualmente, o pesquisador Daniel Goleman é considerado o maior estudioso no tema de inteligência emocional. Sua definição do conceito é a seguinte:

“A capacidade de identificar nossos próprios sentimentos e dos outros, de nos motivarmos e gerirmos os impulsos dentro de nós e em nossos relacionamentos”

(Livro Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente - Daniel Goleman)

O autor elenca alguns pilares da inteligência emocional, quais sejam:

  1. Autoconhecimento: é o conhecimento sobre o que se sente, sobre o que te move e sobre suas fraquezas.
  2. Autogestão: está conectada com nossa capacidade de tomar decisões de forma mais consciente, racional e menos impulsiva. Nesse sentido, é a habilidade de autogerir nossas emoções, impedindo que situações estressantes ou adversas dominem nosso comportamento de forma negativa.
  3. Automotivação: possibilidade de dirigir nossos esforços para uma conquista ou objetivo. É possível estabelecer uma meta pessoal que nos motive a continuar nos movendo e, ao fazer isso, estabelecer metas pequenas, mais razoáveis, que nos auxiliem a encontrar um objetivo maior;
  4. Empatia: a capacidade de se colocar no lugar do outro para entender de onde ele parte em sua interpretação de uma determinada situação. Isso garante maior sintonia com o mundo e maior destreza na interpretação da reação de outras pessoas em contato conosco;
  5. Habilidades sociais e de relacionamento: envolve a comunicação clara e a atenção às demandas do outro.

Acordar todos os dias é uma surpresa

Você acorda. Seu cérebro faz diversas suposições.

Você não sabe - com certeza concreta - o que irá ocorrer naquele dia. Você pode ter uma uma razoável noção de onde deve estar e em quais momentos, mas nada é 100% garantido.

Um exemplo: é possível que você planeje seu amanhã inteiro antes de dormir, durma e, ao acordar, tenha sido acometido por uma gripe que te impeça de exercer seus objetivos. Como lidar com essa situação?

Esse tipo de imprevisto gera estresse - um estado de alerta que não é necessariamente negativo. Apesar disso, não é raro que tenhamos a sensação de perda de controle que é extremamente desconfortável, elevando o estresse além do razoável.

Podemos pensar em um exemplo prático dentro do universo jurídico: você já viveu uma situação em que foi surpreendido por uma testemunha em audiência? Justamente na hora de prestar testemunho, uma versão desencontrada com tudo aquilo que foi observado na preparação é dada.

É claro que isso nos gera uma reação emocional - estresse, ansiedade, até mesmo uma dificuldade de retomar a linha de pensamento. Mas isso não pode te tirar do seu eixo, sob pena de comprometer outros depoimentos e acabar perdendo todo o foco da audiência em questão.

Como lidar com isso com os desafios imprevistos da profissão?

Aqui, algumas das práticas de Goleman podem ser utilizadas. É importante compreender suas emoções e reações. Essa situação imprevista me gera qual resposta emocional? Você tende a reagir com raiva? Consegue respirar fundo e esfriar a cabeça para continuar a tarefa que estava exercendo ou se vê em uma posição de vulnerabilidade e distração?

Este primeiro reconhecimento nos auxilia com a nossa percepção de nós próprios em reação a um momento que contraria nossas expectativas, mesmo que razoáveis.

Fato é: situações adversas irão ocorrer na vida. Não possuímos controle de tudo.

Retomando o exemplo da testemunha que foge totalmente da entrevista de preparação e conta uma versão nunca antes ouvida em audiência.

É importante lembrar que você se preparou para aquele momento. É provável que ninguém mais na sala possua conhecimento dos fatos, das provas e dos autos como você.

Nesse sentido, mesmo que a situação tenha te surpreendido, você não pode aceitar sua primeira reação emocional. Caso contrário, você corre o risco de se estagnar pela frustração causada pela imprevisibilidade, e terminar causando ainda mais prejuízo do que o próprio deslize da pessoa que depôs.

Tente compreender o que fazer a partir deste fato novo, buscando, portanto, nova situação de estabilidade e controle. A flexibilidade e a criatividade tornam-se importantes ferramentas neste momento.

Dicas práticas de treinamento da sua inteligência emocional

  1. Valorize boas noites de sono e pratique exercício físico

A saúde do corpo e da mente representam, muitas vezes, uma coisa só: simplesmente saúde. Muitas pesquisas demonstram como o exercício físico é ferramenta importante no combate de estresse. Por sua vez, uma boa noite de sono auxilia seu corpo na consolidação da memória e no equilíbrio hormonal. São práticas que podem melhorar seu bem estar e te auxiliar no campo emocional de sua vida.

  1. Reserve momentos para você no final do dia anterior ou no início do dia seguinte

Como será seu próximo dia? Quais suas preocupações? Elas estão alinhadas e te auxiliam a atingir seus objetivos?

Muitas vezes, nos jogamos no turbilhão dos dias sem refletir sobre onde estamos, o que estamos fazendo. Ter um pequeno momento com você próprio antes de se jogar em suas tarefas cotidianas pode mudar sua percepção de si mesmo, de suas prioridades e daquilo que você se compromete a fazer. Além disso, pode auxiliar que você retome o dia de forma mais estratégica.

3. Perceba seus pensamentos: como você reage a uma situação?

Uma prática importante da meditação é a percepção dos próprios pensamentos. Em técnicas de meditação como a de "não-reação", somos guiados a perceber um pensamento que invade a consciência da respiração, aceitá-lo e deixá-lo ir.

Fato é que não estamos totalmente presos aos nossos pensamentos. Muitas vezes entramos em ciclos que nos impedem de ver além de nós mesmos, que nos fazem crer que a única reação possível é aquela que estamos tendo.

Neste sentido, a autoconsciência é importante. Saber compreender suas reações e o que as gerou. Quais os seus gatilhos? O que te estressa emocionalmente? Você possui gatilhos positivos, ou seja, coisas que te promovem uma "volta ao eixo" quando as coisas perdem o controle?

Compreender a integração de suas atitudes, os atos de sua vida e seu pensamento te auxiliam a se compreender melhor e fazer com que situações de estresse sejam contornadas de maneira mais adequada.

4. Incentive ambientes de troca

É muito possível que as pessoas que frequentam os mesmos espaços que você se sintam de forma parecida e enfrentem problemas parecidos. Compreender o modo de vida e a interpretação do outro sobre uma mesma realidade te auxilia a desenvolver importantes habilidades comunicacionais e de empatia.

Nesse sentido, pode ser favorável que, no ambiente de trabalho, haja momentos de compartilhamento e troca entre os funcionários. Caso não seja possível criar um ambiente de transparência e troca dentro do trabalho, não deixe de se comunicar com seus amigos e com as pessoas queridas sobre aquilo que sente.

Muitas vezes, é possível encontrar no outro um espelho das situações que vivemos, com perspectivas e táticas diferentes para lidar com uma mesma realidade. Compartilhar significa aprender.

Além disso, compartilhar sobre as dificuldades e derrotas - e não apenas sobre nossos sucessos e conquistas, como é bem comum em redes sociais - nos auxilia a treinar nossa empatia e humanizar as pessoas ao nosso redor e nós mesmos.

  1. Invista em boas técnicas de comunicação

A prática de Comunicação Não-Violenta (CNV) é muito estudada dentro das pesquisas sobre métodos consensuais de solução de conflitos, como mediação e conciliação. O livro, de autoria de Marshall B Rosenberg, trás dicas práticas para uma expressão menos agressiva, que dialogue mais com o que sentimos e com nossas necessidades.

Ocorre que o estudo da CNV pode ser útil para um advogado em diversos sentidos, na medida em que além de auxiliar no trato de relações interpessoais, a CNV pode ser uma técnica interessante para negociações e para a boa expressão de necessidades e formulações de pedidos dentro de um conflito.

Na Comunidade Jusbrasil, alguns textos já foram escritos explorando o tema de maneira mais aprofundada.

Estabelecer boas técnicas de comunicação é uma forma de conseguir se conectar melhor com seus clientes e passar mais confiança de suas percepções e suas atitudes sobre o caso concreto.

6. Se precisar, não hesite em procurar ajuda

Muitas vezes advogados entendem o estresse como parte natural da profissão. Apesar disso, não hesite em procurar ajuda profissional caso sinta que é necessário. A busca por terapeutas e psicólogos é uma ótima ferramenta para trabalhar o autoconhecimento, e fazer parcerias com empresas que atuam com a preservação da saúde mental, como o Zenklub, pode ser uma boa alternativa.

E claro, caso você passe por uma situação de emergência, também é possível procurar o CVV - Centro de Valorização da Vida, que possui atendimento 24h e realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio.

O que você acha sobre os altos níveis de estresse na advocacia? Que outras dicas você daria sobre a aplicação da inteligência emocional no mundo jurídico? Deixe seu comentário no texto e debata conosco!


Texto de Emanuella Ribeiro Halfeld Maciel

4 Comentários

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Artigo de grande importância. Muitos profissionais não percebem a tempo os danos à saúde. Conheço advogados que morreram por infarto derivado do stress ou tiveram outros problemas diversos de saúde. continuar lendo

Parabéns pelo texto! Sou partidário da Comunicação Não-Violenta, como regra. Ter inteligência emocional é importantíssimo para essa modalidade de comunicação. continuar lendo

Excelente abordagem. Parabéns! continuar lendo

Otimo artigo. continuar lendo